quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Não, não sou!

"Se eu não olhasse para Ezequiel, é provável que não estivesse aqui escrevendo este livro, porque o meu primeiro ímpeto foi correr ao café e bebê-lo. Cheguei a pegar na xícara, mas o pequeno beijava-me a mão, como de costume, e a vista dele, como o gesto, deu-me outro impulso que me custa dizer aqui;- mas vá lá, diga-se tudo. Chamem me embora assassino;
não serei eu que os desdiga ou contradiga; o meu segundo impulso foi criminoso. Inclinei-me e perguntei a Ezequiel se já tomara café.

- Já, papai; vou à missa com mamãe.

- Toma outra xícara, meia xícara só.

- E papai?

- Eu mando vir mais; anda, bebe!

Ezequiel abriu a boca. Cheguei-lhe a xícara, tão trêmulo que quase a entornei, mas disposto a fazê-la cair pela goela abaixo, caso o sabor lhe repugnasse, ou a temperatura, porque o café estava frio... Mas não sei que senti que me fez recuar. Pus a xícara em cima da mesa, e dei por
mim a beijar doudamente a cabeça do menino.

- Papai! papai! exclamava Ezequiel.

- Não, não, eu não sou teu pai!

("Segundo Impulso", Capítulo 137, Dom Casmurro)
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segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Frio e calor

Esse é o primeiro post do ano e, como não poderia ser diferente, venho escrever sobre o que vejo nas ruas, às vezes jogado pelas calçadas, às vezes no pensar vago e descompassado do dia a dia. Ter várias facetas e contato com muitas pessoas é bom, porque me faz ver o ser humano sob vários prismas e em vários momentos - coisa que me incita a pensar se fosse eu e me desafia a provocá-lo, como se fosse você.

Ouço as respostas efêmeras às coisas do mundo e me surpreendo em vários sentidos, como já falei. Com os clientes criminosos, algumas vezes tão quanto vítimas de tantas coisas e com o sistema impregnado de corrupção. Me estarreço com a futilidade da noite, sempre que vou tocar em casas noturnas com a entrada disputada centímetro a centímetro nas filas, numa entrega desmedida a não-sei-o-quê. E com o vazio que vejo em cada rosto que se entrega a uma pessoa diferente a cada cantar do galo, intuitivamente querendo mostrar aos que nada são, o que também não se é.

E como, sabiamente, diz a Bíblia em Mateus 24:12, "(...)  por se multiplicar a iniquidade, o amor de muitos esfriará". E esfria mesmo. Murcha, seca. Como a volatilidade de um encanto fugaz, quando se viu... puf! Acabou. Não se tira de um poço mais água do que ele tem e depois nem adianta dizer que não sabia.
É que esse amor que se esfria acaba sofrendo com o gelo da iniquidade, multiplicada pelas mentiras.

E há tantas coisas pra se esquentar o amor! Tem um bom cobertor que é a cumplicidade. Não se iluda, tudo o que não é dito pode ser imaginado, e imaginar é um direito também! E pode dar frio, aliás quase sempre dá. Dá medo, que acaba sendo uma hipotermia danada.
Há um agasalho também que é a verdade. Como esquenta ouvir o que é verdadeiro, honesto, justo, puro, amável, de boa fama, né?! Bom pensar nisso, pois nisso há virtude e louvor.
Posso até falar de outras mantas e edredons, como a confiança, compreensão, dedicação, entrega. Mas uso esse espaço - eu sempre repito isso - como a janela lateral do meu quarto de dormir, onde vejo as coisas que lá foram passam e que refletem aqui dentro. E, sinceramente, não dá pra ver tanta coisa de uma só vez, pelo menos por ela.

E então, quando porém vier o que é perfeito, o que é em parte será aniquilado. E congela pra nunca mais derreter, como grandes geleiras cansadas de esperar pelo sol, que nunca veio. E nem nunca virá.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Dois mil e ouse!

Adeus 2010!
O que ficou?! Lição e histórias, ainda mais, pra contar...

E que em dois mil e onze, a gente ouse, e ainda mais.
Será o ano da virada, pode apostar.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

À flor da pele

Ao longo do tempo é natural que algumas coisas se fortaleçam, e que outras se enfraqueçam. Acho isso natural. É natural que o que ganha vigor precise saber que isso não é eterno, assim como aquilo que fragilmente ficou pelo caminho pode a qualquer tempo ter outro fim.
Hoje, 10 anos após uma grande lição, me encontro diante de outros grandes desafios. É redundante até dizer que sejam grandes, mas é que somos do mesmo tamanho daquilo que desafiamos. É como o dito popular que diz que "Deus dá frio conforme o cobertor". Concordo. As escrituras falam que não existe tentação insuportável e maior que nossas forças - e isso é um martelo que destrói qualquer álibi de fragilidade, que arrasa o mais agudo argumento que apóia a covardia.
Ainda vou escrever esse ano, apesar de ter passado um longo tempo ausente daqui. Mas é que evito falar alguma coisa pela qual venha me arrepender depois, e de bobagens sempre me arrependo.

Lembro que nessa época no ano passado estava no Rio, na casa de Bibi e Rafa, com Giulia ainda tão pequena. Hoje ela tá mais forte, foi uma das coisas que ganhou vigor nesse 2010 que está prestes a se apagar na última luz. E cada dia mais esperta.

A vida não merece avaliações, só os erros. Aliás, retiro o que disse, nem os erros. Acredito que avaliar é perder tempo quando se podia acertar. Ou ainda errar de novo, e por que não?! Por que esse clichê de 'aprender com os erros'? Pra que o medo que nada arrisca?! Onde está a ousadia de não errar de novo?!
Gosto dos que insistem. Esses merecem todo o êxito que houver nessa vida. Porque sabem que vão errar, erramos muito! E isso não nos faz mais (ou menos) sábios! E fé não combina em nada com medo. Fé está muito perto de risco. Risco de ser chamado de louco, e convenhamos: o mundo é dos loucos.
O avanço tecnológico é devido aos loucos. As grandes expressões artísticas recebem a assinatura dos loucos.

Estou à flor da pele, no sentido de sentir o mundo. Cada expressão de loucura me enche a medida. Cada sinfonia que ouço, cada livro que leio, cada detalhe que observo me toca. E tudo isso se mistura dentro em mim, e assim me lanço a mais uma década. Em 2020 estarei com 37 anos, e quero ter experimentado tudo na mesma intensidade com que provei tudo de dez anos pra cá. Foram tantas coisas que deram alegria que soa desafiador falar em intensidade quando comparo essa expectativa. Mas vamos lá, esse é o meu combustível, sempre foi. E não é agora, na flor da idade e à flor da pele que vou mudar. Espero que não.

domingo, 28 de novembro de 2010

Guarda o coração

Das coisas que mais se deve guardar, há uma tão sagrada que até a Bíblia, o livro dos livros, alerta a ser guardado. "Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida", diz o livro de Provérbios, com singular e particular sabedoria. Acredito isso como um grande desafio, principalmente àqueles que colocam, em tudo, o coração. A crença aqui é genérica, não é de amores que fala esse post. É da vida, já que sem esse órgão ela não existe.
Eu particularmente guardo muitas coisas, e em vários lugares. Em casa guardo uma caixa, aliás, agora duas com monte de coisas. No carro também cabem coisas que só lá ficam guardadas. Na alma não é diferente, e lá ficam acumuladas coisas que faço questão de não esquecer.

Troquei recentemente a música do meu alarm clock. Agora a alvorada é ao som de 'Hunting high and low' do A-ha, que é uma linda canção. O amor é um gigante, um gigante adormecido. Não queira acordá-lo, você é incapaz de fazer isso! Guarde o seu coração que ele é um bom despertador, preparado com uma canção que raramente se ouve.
Guarde-o da avareza, que essa é incapaz de dividir, e o amor é divisão. E algo de tanto valor não pode ser dividido assim, como se reparte um bolo. Ah, lembre de guardá-lo de ressentimento também. Ressentir é sentir de novo, e não se sente a mesma coisa duas vezes. E sentir de novo é ficar impregnado do que já se foi, um jeito triste de não se guardar o coração. Meio contraditório isso, guardar e ressentir.

Enfim, tudo o que é verdadeiro, que é honesto, que é justo. Tudo o que é amável, de boa índole, de boa fama. Acho que há alguma virtude nisso. E também acho que é disso que sobrevive o coração, quando bem guardado. Ou do inverso sofre com o avesso dessas coisas, quando não guardado.
Senão, como um ledo engano vai se cansando, e desacreditando em fase terminal. Melhor guardá-lo, e esperar que ele toque na hora certa e suavemente realize o seu papel. Acordou?!

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Dois ovos, farinha e fermento, muito fermento

Nem sempre as coisas são tão fáceis como inicialmente se imagina.
Não sei se você já tentou fazer um bolo, ou uma receita qualquer, e apostou ser improvável que viesse a dar errado. Não fazemos nada achando que vai dar errado, pelo menos eu. Sempre faço tudo pra dar certo e, principalmente, que vai dar certo. E tem sido assim há 27 anos.
Tô falando isso porque depois de ver o bolo pronto e saboreá-lo é bom, e fácil elogiar. Fazer também é, mas nem sempre é tão fácil, o que não faltam são pessoas para dar opinião nonsense, sem saber que tudo que você aprendeu ao longo do tempo foi usado naquela receita e foi junto ao forno.

São lições, atalhos, expedientes usados, tudo o que deu certo e o que não deu. A hora de colocar e de retirar do forno. Onde ir buscar os melhores ingredientes e de que forma aplicá-los, assim como saber tirar o melhor deles. Enfim, fazer acontecer e fazer com que fique bom, outra vez.

Dia 05/11 estreia, oficialmente, minha banda Gafieira Soul. Pronta. Saindo do forno.
E venho bem acompanhado. Trago a confiança, a amizade e a cumplicidade de Rico e de Flávio, temos crescidos juntos e só saberemos o valor disso mais adiante. E trazemos também o talento de Riva, a segurança de Israel, o astral de JP, a energia de Faxineira e o brilho de Lara. Todos se encaixaram nesse nosso quebra-cabeça, ou melhor, nessa receita.

Com uma pitada de cada um deles, fizemos a Gafieira Soul e dizemos, por isso, que a banda toca dobrado. Eu aumentaria essa multiplicação, mas é preciso humildade, sempre ousadamente humilde. Por isso, aguardo todos por lá. Ou melhor, aguardamos todos por lá (no plural porque são 3 chef's).

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Novo pneumotórax


Meu diagnóstico foi feito. Minha doença se chama poesia.
Não sei que poesia é só para recitar. Eu acredito. Acho que poesia é para viver.
E os poetas são todos doidos. Poesia é uma forma de loucura.
Veja só: o Fernando Pessoa diz “Tudo menos ter razão!” Se ele fosse normal diria o contrário, “Tudo menos não ter razão!”.
É por isso que os normais brigam uns com os outros, especialmente marido e mulher: cada um quer provar que está com a razão. Razão é o que todo mundo pensa e faz. Qualquer idiotice que seja feita por todos passa a ser considerada sabedoria.
(...) Isso que normalmente damos o nome de razão são máscaras, mentiras, equívocos, farsas. A nossa verdade anda sempre enterrada.

Rubem Alves

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Sobre simplicidade e sabedoria

Diz o Tao-Te-Ching: "Na busca do conhecimento a cada dia se soma uma coisa. Na busca da sabedoria a cada dia se diminui uma coisa."
(...)
Sabedoria é a arte de degustar. Sobre a sabedoria Nietzsche diz o seguinte: "A palavra grega que designa o sábio se prende, etimologicamente, a sapio, eu saboreio, sapiens, o degustador, sisyphus, o homem do gosto mais apurado." A sabedoria é, assim, a arte de degustar, distinguir, discernir. O homem do saberes, diante da multiplicidade, 'precipita-se sobre tudo o que é possível saber, na cega avidez de querer conhecer a qualquer preço.' Mas o sábio está à procura das 'coisas dignas de serem conhecidas'. Imagine um bufê: sobre a mesa enorme da multiplicidade, uma infinidade de pratos. O homem dos saberes, fascinado pelos pratos, se atira sobre eles: quer comer tudo. O sábio, ao contrário, para e pergunta ao seu corpo: 'De toda essa multiplicidade, qual é o prato que vai lhe dar prazer e alegria?' E assim, depois de meditar, escolhe um...

A sabedoria é a arte de reconhecer e degustar a alegria. Nascemos para a alegria. Não só nós. Diz Bachelard que o universo inteiro tem um destino de felicidade.

O Vinícius escreveu um lindo poema com o título de "Resta..." Já velho, tendo andado pelo mundo da multiplicidade, ele olha para trás e vê o que restou: o que valeu a pena. 'Resta esse coração queimando como um círio numa catedral em ruínas...' 'Resta essa capacidade de ternura...' 'Resta esse antigo respeito pela noite...' 'Resta essa vontade de chorar diante da beleza...'. Vinícius vai, assim, contando as vivências que lhe deram alegria. Foram elas que restaram.

As coisas que restam sobrevivem num lugar da alma que se chama saudade. A saudade é o bolso onde a alma guarda aquilo que ela provou e aprovou. Aprovadas foram as experiências que deram alegria. O que valeu a pena está destinado à eternidade. A saudade é o rosto da eternidade refletido no rio do tempo. É para isso que necessitamos dos deuses, para que o rio do tempo seja circular: 'Lança o teu pão sobre as águas porque depois de muitos dias o encontrarás...' Oramos para que aquilo que se perdeu no passado nos seja devolvido no futuro. Acho que Deus não se incomodaria se nós o chamássemos de Eterno Retorno: pois é só isso que pedimos dele, que as coisas da saudade retornem.
(...)
Aí eu consulto o meu bolso da saudade. Lá se encontram pedaços do meu corpo, alegrias. Observo atentamente, e nada encontro que tenha brilho no mundo da multiplicidade. São coisas pequenas, que nem foram notadas por outras pessoas: cenas, quadros...

Diz Guimarães Rosa que 'felicidade só em raros momentos de distração...' Certo. Ela vem quando não se espera, em lugares que não se imagina. Dito por Jesus: 'É como o vento: sopra onde quer, não sabes donde vem nem para onde vai...' Sabedoria é a arte de provar e degustar a alegria, quando ela vem. Mas só dominam essa arte aqueles que têm a graça da simplicidade. Porque a alegria só mora nas coisas simples.


(Rubem Alves, "Concerto para corpo e alma", pg. 09.)

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Rafa de sapato novo!

Peço licença pra mudar de nome.
Antes meu dono me chamava de rafaelfonsecademelo, mas achou por bem me dá essa nova alcunha: rafadesapatonovo.

Se isso fosse na vida real seria uma burocracia danada. Ele mesmo disse que precisava de um processo, uma ação, se justificar pro juiz, falar com um tal de Ministério Público, e blá, blá, blá.
Daí fiquei cansado só de ouvi-lo, e olhe que ele fala!

De sapato novo porque é assim que passo a caminhar. Com um novo pisar. E a partir de agora só vou onde os novos sapatos me mandarem. Rafa também me disse que o soneto que ele mais gostava era o do 'desmantelo azul', de um tal Carlos Pena Filho. Tá. Mas... o que eu tenho a ver com isso?
O que um espaço feito pra parar um pouco o que está acontecendo na vida real - que é tão chata quanto previsível - e entrar num mundo que é só dele, tem com isso?!

É que Rafa acaba de pintar de azul os seus sapatos, por não poder de azul pintar as ruas. E foi daí que nasci!
Ando, disse ele - literalmente - de sapatos novos. Pense em como você se sente de sapato novo: o comprou pra usar com aquela roupa, e sair pra'quele lugar, talvez pra mostrar aos outros. Ou pra correr melhor, jogar melhor, viver melhor.

E é exatamente assim que Rafa tá. De sapatos novos. Na alma, nos pés.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Fome de que?

Tava pensando o que me satisfaz e vi que me alimento de sonhos. É! Muitas vezes só com eles - e mais nada - já fico satisfeito.
Sabendo disso, minha querida Didi, que me acompanha desde que nasci, diuturna e gentilmente serve o meu almoço - quando dá pra fazer isso em casa - nem sempre só com comida.
Conversamos sobre tudo, e viro fera se alguém disser que ela não sabe das coisas. Ela sabe, e sabe muito de tudo.
Sabe da vida, e o resto não importa. Outro dia regularizei o título de eleitor dela, para que pudesse votar nas próximas eleições. Disse que todos deviam ter consciência política, ajudar os menos favorecidos e prestar contas do que fazem. Ou seja, sabe tudo.

Mas sim, voltando. Gosto de ouvi-la falar sobre os filhos, que foram feitos no tempo certo, com a pessoa certa e acima de tudo com amor. Sempre comenta do jeito e do gênio que cada um tem. Esse carinho pelos herdeiros ela também dispensa a mim, já que me pegou nos braços e me viu crescer.

Acabo sempre saindo satisfeito da mesa. Almoço, mas também escuto e, como já dito, isso também me alimenta. Talvez até mais, pois nunca tive indigestão por sonhar.
Por isso a minha crença que as coisas irão chegar, ah irão. No tempo certo, na hora certa, do jeito certo.

Ando faminto, mas logo converso com Didi e a fome passa.