sábado, 16 de fevereiro de 2013

Menos um apaixonado

Outro dia escrevi que o futebol estava sem graça. Vejo o esporte bretão como um quadro que outrora já fora uma obra de arte e hoje está feio, desafeiçoado, sem sentido. Falo de cátedra, como um apaixonado meio bobo que compra camisa, vai aos estádios, é sócio do time, acompanha, vibra, torce, apoia. Vou pro alambrado pra tentar ficar mais perto da bola. Compro jornais só pela página de esportes, e vou direto a ela para ver as notícias do meu time. Pela escassez de tempo, muitas vezes nem leio sobre política ou cultura. É assim desde 1988, quando fui pela primeira vez ao Eládio de Barros Carvalho levado pelo meu querido pai, alvirrubro fiel de quem herdei esse verdadeiro fetiche. Enfim, amo o vermelho e branco de uma forma incondicional e inexplicável. Já viajei pra ver o Timbu de Rosa e Silva ao Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio Grande do Norte, Santa Cruz do Capibaribe. Em alguns desses lugares mal andei nas cidades. Era aeroporto-hotel-estádio. É uma coisa que não tem medida, não tem explicação, nem nunca terá, não há justificativas pra isso.

Hoje foi um sábado, dia de jogo. Tinha tudo para ser um jogo como outro, como tantos outros Náutico x Central que já fui na vida. Por baixo, pelos meus cálculos, já fui a uns vinte. Marquei com os amigos, tirei a camisa da gaveta e saí de casa certo que iria descontrair, dar boas risadas, festejar. Sou de um tempo em que futebol era diversão, que estádio era local de fazer amigos, seja alvirrubro, seja rival. Mas rival de que, afinal?! Rivais porque tem que ter alguém do outro lado durante 90 minutos. Nesse tempo deixamos de ser amigos e passamos a ser colegas. E só. Depois voltamos a ser amigos.

Eram 18:40 e eu estava na padaria que fica em frente ao estádio, ponto de encontro onde sempre vou. De repente saltam de um ônibus, sem qualquer motivo aparente, homens vestidos de preto, armados com cacetetes e armas de fogo e uma batalha começa sem que eu entendesse nada daquilo. Talvez por trinta segundos (ou menos), não fui atingido. Por um momento fiquei atônito, sem saber o que estava acontecendo. Depois recebi a notícia que se tratava de um ônibus onde estavam integrantes de uma torcida organizada do Sport que passava em frente naquele instante. Gritos. Correria. Tiros. Um corpo estendido no chão. Sangue.

Começam a caça e as bruxas são sempre as mesmas.
A Polícia Militar tem culpa? O efetivo era suficiente para garantir a segurança dos 9.000 torcedores no jogo do Náutico?!
A Polícia Civil tem culpa? Homens armados fazendo a segurança particular, como as várias espécies de milícia (e, até onde eu sei, "constituir milícia particular com a finalidade de praticar crimes", é uma conduta tipificada no Código Penal, em seu art. 288-A, cuja pena é de reclusão de 4 a 8 anos) que hoje existe de maneira tolerada e comum em Recife. Verdadeiros esquadrões de organização paramilitar, que agem à revelia dessa autoridade.
A Federação Pernambucana tem culpa? Esse jogo seria amanhã, mas foi transferido pra hoje e ficou um vazio de uma hora entre o término do jogo na Ilha do Retiro e o início do jogo nos Aflitos, tempo suficiente para o encontro das duas gangues.

Torcida organizada tem que acabar. Não me venha com argumentos que fazem uma festa bonita, que animam, blá, blá, blá. Isso é uma ilação que satisfaz a poucos em detrimento da paz pública de todos, bem jurídico dos mais importantes. É muito problema pra apenas 90 minutos (e às vezes nem isso) de alegria. É como um aluno que sempre atrapalha, compromete toda a sala e só tira notas baixas, mas na hora do recreio diverte a todos. Isso é incoerente e a permanência desses vândalos é insustentável e inconsequente.

O Sport empatou e foi eliminado da Copa do Nordeste. O Náutico perdeu o jogo. Lucas teve perto de perder a vida aos 19 anos. Eu perdi o gosto de ir a campo e vou rever seriamente se continuarei a me arriscar em levar um tiro na entrada - ou, como já aconteceu, cair um refletor na minha cabeça, ou cair no fosso - e também morrer. Isso tudo se passou aqui em Pernambuco, nos três maiores estádios. Poderia ser eu e esse texto sequer estaria aqui agora. Poderia ser você que, mesmo sem ir à estádios, passava na Av. Rosa e Silva naquele fatídico instante. Mas, quando uma vida é ameaçada assim, o tempo passa e em poucos dias o sofrimento da família é o único herdeiro desse espólio chamado "Tragédias do Futebol". Mais uma triste página desse livro difícil de ler e, por muito pouco, seria menos uma vida. Mais um inconformado. Menos um apaixonado.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Pai e filho

Começou com 5 visitas diárias, acho que dos amigos que estavam na mesa quando eu falei despretensiosamente. Depois 15, 50, 150. Chegou um dia que o servidor acusou mais de 2.000, do mundo quase todo. Não imagino um chinês lendo essas palavras! Caramba! Mas ele há de entender, como diz o Arthur da Távola, "quem pode afirmar que, durante o sono, fluidos nossos não saem para buscar sintomas com pessoas distantes, com amigos a quem não vemos, com amores latentes?". É, poesia é um dialeto, de uma comunidade de loucos. Os poetas são todos loucos. Poesia é uma forma de loucura. Veja só: o Fernando Pessoa diz "-Tudo, menos ter razão". Se ele fosse normal diria o contrário, "Tudo, menos não ter razão!". Li isso no Rubem Alves. Isso que normalmente damos o nome de razão são máscaras, mentiras, equívocos, farsas. A nossa verdade anda sempre enterrada. E é.

Nesse espaço, que é a janela lateral do meu quarto de dormir, de onde vejo o mundo lá fora e tento traduzir em palavras, eu me mostro por completo. Lendo isso aqui dá pra conhecer, talvez, quem eu sou. Ou, ao menos, quem eu queria ser! O rafadesapatonovo tem esse nome não por acaso, de sapato novo porque assim passei a caminhar de uns tempos pra sempre. Já até escrevi explicando esse tema.

Hoje recebi a ligação da Editora, avisando que a burocracia do meu livro estava resolvida. Pronto, nasci como escritor. Foi como receber a notícia da minha mulher (que nem tenho ainda!), de que estava grávida do meu primeiro filho (que tanto quero ter!). Livros são filhos que educamos antes de nascer. Ensinamos o que queríamos que as coisas fossem. Como eu queria que o mundo fosse mais compassivo, com menos valores materiais, mais humano. Em tempo: somos seres humanos e quase nunca humanos! Ainda há tanta gente na rua, tanta fome, tanta dor, ódio, solidão, mentira, ambição. Não existe mais contemplação, o sol vem e se põe e poucos o veem. Não existe mais afeto, palavras doces, elogios. Ligações pra dizer nada. Sinceridade e honestidade pra dizer tudo. Respeito no começo, e no meio, e no fim. Não existe.

Quero um filho assim, humano, mesmo sem ser humano. Que respeite as filhas dos outros, a família dos outros. Que adentre as casas pela porta da frente, que reconheça a história das pessoas, com seus medos, sentimentos, e respeite os sonhos delas. Nunca escreverei pra dizer que algo não vale a pena. Tem coisa mais deselegante que um filho desbocado e mal educado em um jantar de família?! Depois de crescido dificilmente se educa alguém e, nesse sentido, os livros já nascem grandes.

De gestos pequenos é feita a vida. Um abraço forte, uma lembrança boa, um sorriso à toa. Tenho tudo isso registrado em lugar especial, que se tornará papel, útil para eterniza-lo, em breve. Muito em breve.

sábado, 19 de janeiro de 2013

O velho (e bom) continente!

Milhões de anos luz serão incapazes de curar o que alguns primeiros segundos desse ano me representaram. Volto da Europa e, como se tivesse acordado pra 2013 só hoje, desperto de um sonho que começou ainda no ano passado. Começou comigo ainda acordado e irá perdurar por muito tempo, tenho certeza, mesmo até depois de já ter levantando.

Madrid é uma cidade como nenhuma outra. Elegante e viva, urbana e pulsante. Foi o reveillon mais divertido da minha vida! O Porto é charmoso, tem o céu lindo, talvez o mais bonito que já vi. Portugal e Espanha são dois paísinhos danados! É uma pena não mostrar aqui tudo que os meus olhos viram, guardo mais imagens na memória do que nos registros da máquina. Acho até melhor assim, pois não corro o risco de perde-las. A Espanha tava linda, soberba campeã mundial, emanando bons ares. Portugal é um charme, um segredo guardado a sete chaves, um bom vinho a ser tomado quase que a doses homeopáticas. Andar por lá fez bem à minha alma.

No entanto, o melhor da viagem foram os amigos que fiz. Alguns talvez nem os veja mais nessa vida (há coisa mais incerta do que essa vida?!), mas que me ensinaram muita coisa e adoro quem me ensina alguma coisa. Aprendi demais nesses dias e isso me fez mais humano. Fui recebido e tratado como poucas vezes! Tive uma recepção e uma despedida de quem merece alguma coisa, sem ter feito nada! Descobri que respeito e caráter são fermento e que a paixão é um bolo que precisa deles pra crescer, outro jeito não há. Como já é grande a minha admiração! É, "eu tive que ir embora, mesmo querendo ficar..."

Luísa Silva, cruzo esse oceano atlântico quantas vezes for possível só pra ver você sorrindo ao vivo. Marta Alves, Bia Alves e Ana Rita Costa, com vocês não tem explicação, obrigado por tudo! Amo vocês!

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Um caminho de herança

2012 é daqueles anos que poderia não ter fim. Motivos me sobram pra querer eterniza-lo, e são os mesmos que aumentam a responsabilidade de 2013. Há tanta coisa boa pra celebrar!

Passei no Mestrado da UFPE (academia cuja linha no currículo eu sempre quis ter!). Foram muitos shows e, o que é melhor, muitos bons shows. Multipliquei meus amigos, conheci tanta gente especial, do bem! Atuei em alguns Júris e confirmei ser aquela uma das minhas maiores paixões. Revi lugares importantes pra mim, visitei pessoas importantes pra mim. Procurei ser mais importante para os outros, tentei ser o melhor que eu podia ser para os outros. Comemorei muitas aprovações e nomeações dos alunos em concursos, eu sei que essa é uma luta que se vence por pontos, raramente por nocaute, e isso me fez mais forte. Tomei decisões importantes, algumas definitivas. Sorri um sorriso de esperança ao ver a corrupção receber uma inédita resposta. Vi amigos partirem, mas também vi a vida começar. Que coisa é a vida! Senti que estava vivo a cada momento que chorei ou sorri olhando as coisas lá de fora, daqui de dentro. É bom ter o Senhor do tempo à frente, acalma demais, é a paz que não está à venda, como quase tudo hoje em dia.

Acho que houve mais acerto do que erro. Acho que tô melhor, maior. Mais atento, crescido. Tô meio pronto e meio em preparação. Quero que "a minha esperança seja sempre um caminho que se deixa de herança", como já disse Ivan Lins. 2013 será de um novo tempo.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Sem graça

Futebol tá sem graça. Explico: mesmo com a última e decisiva rodada do Brasileiro pegando fogo por aqui, o futebol tem andado sem graça. O mercantilismo inflacionou salários desde o Palmeiras da Parmalat, tomou conta de cotas de televisão desiguais, desvirtua a paixão honesta e tirou um pouco (um pouco) da magia do esporte bretão.

Entendam.
O Sport, se for rebaixado, não foi pelo último jogo, mas pelas 16 derrotas e 55 gols sofridos desde maio. Isso sem falar nos 3 treinadores, no saldo negativo de -16 gols e nas 33 contratações (dentre elas Lenon, Magno Alves e Silézio. Isso mesmo, Silézio).
O Náutico, se for à Sulamericana, não foi pelo último jogo, mas pelas 13 vitórias e 43 gols feitos em 37 jogos. Registre-se também o aproveitamento de 72,2% dos pontos como mandante e o bom critério nas contratações de jogadores como Martinez, Rhayner e Alemão, por exemplo.

Mas eu tava falando da graça, ou da sem graça. Sinto falta da boa polêmica, saudável, divertida. Antigamente se sabia perder. E perdia-se com classe, indo ao churrasco na casa do adversário da noite anterior, sorrindo, como devia ser. Dá saudade das frases de Dadá Maravilha, das fantasias do Renato Gaúcho, das máscaras do Paulo Nunes, das declarações do Romário, dos dribles e dancinhas do Edmundo, dos gols fantasmas do Túlio. Guardadas as proporções, até das profecias do Carlinhos Bala eu sinto falta. Sou de um tempo em que futebol era arte, e arte em todos os sentidos. Da plasticidade do drible às apostas que se convertiam em cestas básicas.

Hoje o que se vê é tudo, menos arte. Uma declaração feita através de uma rede social se torna uma coisa enorme, maior que uma convocação pra Seleção Brasileira! Vejam, Douglas Santos foi convocado (pela 3ª vez!) e isso fica diminuto nos meios de comunicação diante de 140 caracteres ingênuos. Sim, ingênuos. Não há menosprezo em ser chamado de 'coisa', ou de 'barbie', ou do que quer que seja. No Brasil, é mais grave ser chamado dessas coisas do que de corrupto. Será que é mais interessante polemizar sobre isso ou apontar os (i)responsáveis por essa campanha? Repito, se o Sport cair, a culpa não será do Náutico (não obstante jogar a última pá de terra).

Sou sócio, vou a campo, compro camisa, viajo pra ver o meu time, sou um apaixonado meio bobo. Mas que aos poucos o futebol vai perdendo a (pouca) graça que ainda tem, isso vai.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Vitória do caráter

Eu sei que você já leu algumas histórias surpreendentes ao longo da sua vida, independente de quantos anos ela tenha. Sei também que, para cada referencial, existem importâncias diferentes. Um testemunho que pode parecer comum para mim, soa surreal pra você, ou vice-versa. A verdade é que "perder o idealismo com a idade é falta de caráter"*. E ser um idealista tem um preço que, no meu caso, muitas vezes acaba sendo muito alto.

Digo isso porque o Direito Criminal começou a gostar de mim e, apenas um tempo depois, passou a ser correspondido. Na verdade, comecei a perceber que isso faria (e espero que faça) parte da minha vida pelo tempo que ela perdurar, quando me vi diante de uma realidade latente, como uma panela que ferve a 150°C e é tocada sem a expectativa que pode queimar. Ser defensor público me deu indignação suficiente para saber que sensibilidade e razão devem sempre caminhar como par perfeito. Eu sei o que acontece nos calabouços dos distritos policiais pelo Brasil afora. É um ledo engano achar que 1º de abril de 1964 é uma data há 48 anos atrás. Os Atos Institucionais que a ditadura pôs em prática, suprimindo as liberdades individuais e criando um código de processo militar que prendia e encarcerava (quando não fazia desaparecer) pessoas suspeitas é reproduzido de maneira cruel nos nossos dias e, pior, de maneira atroz, bárbara, maligna e perversa. A covardia de policiais e agentes é inversamente prorcional ao meu receio de escrever palavras como essas, e diretamente proporcional ao medo que eles tem de me enfrentar em um tribunal. De igual pra igual esses covardes não tem coragem de olhar no meu olho, como dizem ter quando levam inocentes às salas de investigação ou de reconhecimento e deles arrancam confissões ao preço de não deixarem impunes infrações que não tiveram a capacidade de previnir ou resolver.

Ao enxergar realidades como essa, não se pode subsistir a pudícia. Falo essas coisas sem medo de deixar de ser leve. Não tenho medo. Disse e repito a quem tiver ouvidos para ouvir e olhos para ler, que meu receio em enfrentar esse sistema corrupto e sanguinolento é diretamente proporcional à covardia dele. E melhor: não estou sozinho.

Acabo de ler uma história surpreendente. Aliás, algumas histórias, no plural, todas surpreendentes. Chegou até a minha pessoa, como um sopro qual um canto de um pássaro solto e livre, esse livro que me fez escrever esse post. "desCasos - uma advogada às voltas com o direito dos excluídos"** é um daqueles livros que devem ser lidos agora, sem deixar pra amanhã. Devorei-o em exatos 32 minutos, não por ser pequeno (o que de fato é, poderia e deveria ser maior!), mas por ser delicioso. A sua escritora, a Alexandra Lebelson Szafir, é defensora pública e igualmente irriquieta com as incoerências do sistema brasileiro. O que a torna ainda mais precisa (em ambos os sentidos que precisa possa receber) é que por motivos de uma ELA (esclerose lateral amiotrófica) ela teve afetados os movimentos das pernas, depois das mãos, braços, costas e, finalmente, deglutição e fala - o que a impossibilitou de escrever e até ditar para que alguém o fizesse. Suas ideias e pensamentos brilhantes presos à sua mente puderam ser lidos por mim (e espero, do fundo da minha alma, que por você também) por um programa de computador criado por uma fonoaudióloga que funciona como uma webcam que focaliza o seu rosto e se fixa no ponto central dele, que passa a comandar o mouse, movendo-se na tela de acordo com os movimentos do nariz - o que a levou a dizer que "começou a meter o nariz onde não foi chamada", em tom leve e brilhante. Fantástico né?! Perfeita.

Que bom que existem pessoas como Alexandra no mundo. Citando Edmund Burke - o que ela também faz - "ninguém comete erro maior do que não fazer nada porque só pode fazer um pouco". Muito ou pouco espero jamais deixar de fazer a minha parte. Idealizo coisas grandiosas. No amor, na profissão, na vida. E perder esse idealismo me faria um derrotado de alma. Um perdedor de caráter.

____________
*Frase do Dr. Ranulfo de Melo Freire, citada no livro "desCasos - uma advogada às voltas com o direito do excluídos", livro esse de leitura OBRIGATÓRIA para qualquer ser humano - seja indiferente ou preocupado com a humanidade, presente e futura.

** SZAFIR, Alexandra Lebelson. Descasos: uma advogada às voltas com o direito dos excluídos. São Paulo: Saraiva, 2010.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Quando não houve bucha de canhão

Hoje me peguei completando um desses cadastros que estamos a preencher em cada lugar ou site por onde passamos. Na profissão fiquei em dúvida. Melhor, tive duas certezas - o que também não deixa de ser uma dúvida. Lembrei-me na hora de um amigo que me achava um professor que advogava, e não um advogado que ensinava. Concordei. Gostamos de ser chamado por aquilo que mais gostamos de fazer. Damas que passam uma, duas ou às vezes até mais horas a se arrumar merecem ser elogiadas. Um jardineiro que dedica dias da sua vida a um jardim merece ser elogiado e, nesse caso, em dobro. Pessoas que nos fazem bem pelo simples fato de ocuparem nosso pensamento merecem elogios.

Sim, mas o que gosto mesmo é de ensinar. Gosto de receber e-mails de alunos gratos por terem conseguido 'fechar' uma prova que passaram tempos a se preparar e que lograram êxito. Fico feliz da vida por ter-lhes entregue algumas horas e dias da minha companhia! Quando dividem isso comigo me sinto tão vitorioso quanto eles, acho que cumpri meu papel aqui na Terra. Me apetece ver alunos ocupando funções públicas e as fazendo dando o melhor de si, alimentando suas famílias, sustentando seus lares, educando seus filhos. É um trófeu que meu sorriso ergue, uma recompensa que não é pecuniária e nem tampouco faz cessar as minhas necessidades vitais que meu corpo fadado aos prazeres clama. Mas me faz feliz por completo! Você não imagina o carnaval que fica dentro de mim ao caminhar no Fórum, ou dirigir meu carro no trânsito, ou ir às repartições e ouvir um "Professor, tudo bom?! Olha, nunca me esquecerei daquelas aulas de direito penal! Legítima defesa, homicídio, lesões corporais, pena privativa de liberdade, progressão de regime! Dos seus exemplos, suas histórias... me ajudaram demais, foi útil à minha realização, minha aprovação no concurso!". Me sinto um pai após um dia de trabalho a ninar seu filho que foi à escola e dorme se preparando para um outro dia. Isso me instiga, tira meu ar, faz meu pulso bater. Acredito mesmo que nasci pra isso.

Já advogar me faz bem na alma. Mexe com muita coisa que eu tenho contido. Aliás, não só eu mas todos que se indignam diante de uma injustiça. Quer maior sacanagem do que aquela que a China fez com o Tibet?! Quer maior injustiça do que a que fazem com os brasileiros que se levantam diuturnamente em relação ao peso tributário que são obrigados a suportar, quando na verdade poderiam usar esse dinheiro para o seu prazer?! Não falo nem da corrupção de parlamentares, de desvios de verbas públicas, de políticos que se apropriam de dinheiro que não lhes pertencem. O Brasil tem mudado e creio que bons ventos hão de soprar por aqui. Mas já perdi o sono por não suportar injustiças. Já passei noites em claro por ter de encontrar razoabilidade em defesas de acusados confessos. Sei o que se passa, ainda hoje, nos calabouços das delegacias de polícia. Já precisei resolver em um dia de plenário no Tribunal do Júri uma injustiça que se arrastou por mais de quatro anos entre oitivas e audiências onde não se achava o acusado mas que, pela necessidade de dar uma resposta tão irresponsável quanto inconsequente, o crime precisava de um culpado. A expressão "bucha de canhão" tem origem na humilhante identificação para aqueles que, defendendo a pátria (que os oprimia!), morriam aos milhares no campo de batalha. Aquele processo precisava de uma bucha de canhão, mas não teve. E nem terá, pelo menos enquanto eu puder com as minhas tão frágeis forças equilibrar essa balança, e tiver vez e voz. Só de escrever isso já começo a sentir o sangue ferver. Isso muitos dias foi e ainda há de ser meu alimento. Chego a perder o apetite, mas ganho em sonhos. E, melhor, em sonhos realizados.

Ou seja, escrevo por prazer de escrever e me derramar nesse espaço. Como falei no início, todos que dedicam parte do seu tempo a algum fim, se há nobreza nele, merecem os aplausos. A moça que se embeleza, o jardineiro, gente empenhada em fazer o bem. Fico feliz porque existem pessoas que me provocam a escrever e elas são tão importantes! Tão importantes que merecem ser lembradas. Obrigado por cobrarem, quase que em tom de exigência. Somos bons quando somos provocados. E melhores ainda quando deixamos uma parte de nós por onde andamos, e do meu corpo já tem boa parte por aqui.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Uma garrafa jogada ao mar

Tenho experimentado coisas impressionantes na vida e da vida. Nessas quase três décadas provei do mel e do fel daqui. Hoje, mais do que nunca, sei que a direção é mais importante que a velocidade. Essa é minha religião, sou adepto de tudo que me provoca questionamentos, aprendo mais com as perguntas do que propriamente com as respostas que me dão e - principalmente - que me dou.

Conheci alguém especial, capaz de aumentar o meu fôlego (e tira-lo também!), de me fazer bobo no melhor sentido que ser bobo pode assumir. Queria diante disso desacelerar a vida, diminuir a velocidade para aumentar a intensidade, para assim degustar disso em boas e pequenas doses homeopáticas. Eternizei em uma semana aquilo que eu quero que seja alimento por muito tempo e espero lembrar de coisas que me tragam esperança. Bacana isso não?! Veja que não há pecado em querer eternizar essas coisas! Se, por si só, elas forem para sempre, é como ter lembranças do que se vive a todo instante. Que briga boa contra o tempo! O que é a esperança, senão aquela lembrança de que tudo dará certo?

Já ouvi pessoas mais velhas dizerem que antigamente se vivia mais intensamente, justamente porque se vivia um dia de cada vez, uma coisa de cada vez. Acho que esse é o mal que fazemos a nós mesmos: querer viver tudo de uma só vez, como a sede que devora um copo cheio d'água em um gole só. Perde-se o vagar descompassado, o olhar profundo e hermético, perde-se o afeto, o carinho, a família, a benção, painho, a benção, mainha. Perde-se o respeito aos mais velhos, perde-se oração, novos inícios, novas e boas experiências. Como tão boas experiências desperdiçamos! Quantos amigos deixamos de fazer por falta de gentileza, e quanto bem deixamos de fazer a nós mesmos quando estamos constantemente insaciáveis. Outro dia deixei uma pessoa passar à frente numa fila e ganhei um sorriso. Quer recompensa melhor?! Dei uma coisa tão irrisória e recebi em troca umas das melhores coisas que alguém pode dar a outra pessoa!

Sei que despedidas não combinam com a esperança e a certeza que se inicia. É como dar adeus ao sol da primeira alvorada, isso não irá conter a sua fúria de nascer, ele vem e cresce e ganha força, tão quanto natural é o amor. E se o amor não estiver na pureza e na grandeza das coisas simples, não estará em lugar mais algum. Ele vem quando menos se espera e pega você desprevinido. Vem pelos cantos, sem carro do ano, sem anel dourado, cheio de mistérios. Com uma rosa na mão, a crescer o quanto tiver! Vai, voa porque tem que voar, tomar os ares! Deixa um gosto doce, recordações amáveis, surpresas no caminho.

E, se perguntam pelo futuro, respondo da mesma forma. O amor é um gigante adormecido, que só é acordado aos poucos, lentamente e se ergue calma e serenamente. Não queira gritar para acorda-lo, não adianta. Dê mais de si e requeira menos dos outros e, quando menos se espera, o gigante está de pé, firme, forte, grande, imponente. Atravessa o Atlântico e de lá acena. Ele vai, e essa história desafia qualquer lógica. E a distância desafia o amor, e eu desafio a distância. Não conheço nada capaz de deter a força desse gigante.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Como se escreve saudade no aumentativo?

E, se em uma noite que parecia ser como outra, os astros se riem pra você e resolvem aprontar?! Daí você recebe uma mensagem subliminar como um sinal, se levanta da cama, põe não só uma roupa, mas a melhor roupa e se olha no espelho. Se perfuma, amarra os cadarços e novamente se olha no espelho. É, tá bom. Despretensiosamente sai e, sem sequer saber que tudo já estava escrito, você sente como se realmente aquilo fosse um dia acontecer, daquela forma, e começa tudo.

Ela saía de casa e também não sabia de nada disso. Aliás, saía de tão longe que, digamos, seria até mais improvável que a essa distância ele pudesse estar sabendo de alguma coisa. Por que será que não entendem que as milhas nada significam quando algo está escrito?! Mas ninguém também sabia. Em tom bem brasileiro, aquela noite nascia urgentemente delicada. Tivesse uma trilha seria uma valsa vienense, ou uma bossa de Vinícius, em pouco volume e muita beleza. Também se arrumou, se olhou. Perfumou-se e tornou a se olhar. Estava pronta.

Quis soberanamente que eles se olhassem e se conhecessem. Ele olhou pra ela e, em algum lugar onde tudo estava sendo visto, o estrondo foi grande. Ela sorriu. Ou o inverso. Sim, aquele sorriso, por si só, era capaz disso. Como se ali todas as estrelas sorrissem satisfeitas do dever cumprido, testemunhavam com o privilégio de não serem notadas, mas como se sorrissem aquele sorriso fechado para um só lado da boca. Ah, ela não saberia quantas noites esperavam por aquela. Ninguém sabia. Como também não dava pra saber que a mesma despretensão daquele momento, seria a mesma de uma semana depois, onde tudo convergiu e, novamente, houve festa em um lugar muito distante, acho que em outra galáxia. Dá pra acreditar em festa em outro lugar, quando acontece alguma coisa aqui?! Dá pra imaginar uma plateia para esse nosso teatro diário, nem sempre triste e nem sempre feliz?! Dá pra sonhar alguém sorrindo e mostrando a ele quase que com um holofote que ela estava bem ali, numa escada, de lado, parada?! Entre sem-graças, pessoas comuns?! Pois é. Naquela noite a festa foi maior. Acho que teve champanhe!

No outro dia ela o ganhou. E, sem saber, o ganhou por completo. Com a delicadeza de um ato que não se sabe a origem. Talvez a grandeza da delicadeza de Gandhi, talvez da pureza de São Francisco. Mas acho que diante daquela história que começava a se rabiscar, delicado era pensar como nos olhares do final de um filme, seja do que for. Pode um momento perdurar por todo o sempre?!

Ele sorriu. Andaram juntos, foram à França juntos (tão perto Monttpelier!), dançaram, cantaram, sentiram saudade. Viram um filme (sem até nem saber que já eram protagonistas de um tão bonito que estava a começar!). Naquele, como em um sonho, um lindo sonho tão bonito e tão infinito, deram-se as mãos.

Pra mim é tão real escrever isso, que chego a sentir novamente com a mesma intensidade daquele momento que foi vivido. Grande amores estão em nós e, de uma hora pra outra, ela estava ali. E podem morar a milhas de distância, ou até estar nesse momento a mais de 2.000 km esperando pra ler essas palavras. Mas o fato é que diante do que se sente e da intensidade do que se sente, a distância é tão pequena, as dúvidas de mudas até silenciam e os medos reconhecem a grandeza dessas coisas que ninguém imagina que pode acontecer depois de uma noite de quinta-feira. É quando ele olha o travesseiro e sabe que alguém também deita na mesma hora, tão longe dali. E rasga mais uma folha do calendário, e faz planos. E chora de saudade, mas sabe que as horas correm a seu favor para fazer aquele dia mais próximo. E volta a sonhar, volta a sonhar.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Repara se já viu poesia como esta?!

Hoje fui tomado por um saudosismo sem tamanho. Sempre pensei que a idade não fosse passar e que envelhecer era um evento mais psicológico do que físico. Não mudei de conceito, mas hoje percebo a saudade deitar no meu peito como se tivesse um sono pesado e interminável. Começo a vislumbrar os fatos passados com menor acuidade e alguns acontecimentos ficam como um alguém que acena do cais e eu vou partindo, em um navio que precisa atracar em outros portos.

Se fatiar a vida em pedaços pode ser bom, pra mim hoje foi melancólico, como o olhar fixo nas nuvens cinzentas de uma tarde chuvosa. Dos lugares por onde andei e de tudo que meu olhos puderam contemplar. Tem registros que foram feitos apenas pela mente, máquina digital e câmeras no celular são pontualmente tão recentes! Pessoas inteligentes me fazem falta. Receber ligações no meio da noite de quem menos se espera faz falta. Pegar uma muda de roupa e a escova de dente, entrar num ônibus e viajar pra encontrar alguém faz falta. Não sentir o peso de tanta responsabilidade que eu mesmo me acrescento todo dia faz uma falta danada. E era sobre isso que eu queria falar.

Certa vez conheci uma senhorinha que distribuía flores. Hoje vejo que este é um ofício que não é pra todos. Por mais que se esgotem campanhas de gentileza, que os poetas se esforcem pra disseminá-la e que todo dia fosse 31 de dezembro, não sei se alguém pode fazer melhor aquilo na terra do que aquela mulher. Aquela flor vinha acompanhada de candura, o jeito como ela pegava para entregar e a singeleza e simplicidade daquele ato tornava aquilo gigante, grande demais pra qualquer ser vivente!

Me senti saudoso hoje porque não é simples pensar que as próximas primaveras podem não ser tão boas quanto as últimas. E se forem?! E se não forem?! E se as pessoas que cruzarem meu caminho não forem tão interessantes quanto aquelas que ficaram nele? E se, se, se...

A Adélia Prado é fantástica. Ela fala e eu entendo, sempre. Queria poder dizer isso a ela algum dia. Mas queria dizer sutilmente, da mesma forma como ela fala e eu a entendo. É uma poesia com cheiro, com gosto, com tudo que eu tô sentindo agora. Tem um livro dela chamado "Filandras", que é assim. Tem um trecho que faço questão que você leia:

"(...) Contra céu azul e cheiro de mato verde Deus regia o planeta. Estava muito surpresa com a perfeita mecânica do mundo e muitíssimo agradecida por estar vivendo. Foi quando teve o pensamento de que tudo que nasce deve mesmo nascer sem empecilho, mesmo que os nascituros formem hordas e hordas de miseráveis e os governos não saibam mais o que fazer com os sem-teto, os sem-terra, os sem-dentes e as igrejas todas reunidas em concílio esgotem suas teologias sobre caridade discernida e não tenhamos mais tempo de atender à porta a multidão de pedintes. Ainda assim, a vida é maior, o direito de nascer e morar num caixote à beira da estrada. Porque um dia, e pode ser um único dia em sua vida, um deserdado daqueles sai de seu buraco à noite e se maravilha. Chama seu compadre de infortúnio: vem cá, homem, repara se já viu o céu mais estrelado e mais bonito que este! Para isto vale nascer." (Extraído do livro "Filandras", Editora Record - Rio de Janeiro, 2001, pág. 119.)

 Leio Adélia Prado e volto a sonhar. Venham cá! Reparem se já viu poesia como esta?!