segunda-feira, 6 de maio de 2013

Pronto pro imprevisível


Apesar de nascer com algumas certezas, vivi anos aqui pensando muito, olhando pra dentro de mim mesmo. Ouvi muitos silêncios (e como tem-se silêncios por aqui!). O silêncio do sol forte, todo dia, de milhares que saem pra trabalhar, de tantos que não desistem nunca. Por isso acho que dizem que o nordestino é uma gente forte. Alíás, sou canceriano, nordestino e ainda consigo me encantar com as pequenas coisas da vida. Ou seja, um bobo quase que por completo! O encanto de novos amigos, de uma nova ideia, de um velho livro que nunca foi lido, da surpresa de uma criança.

Queria falar sobre coisas novas e coisas antigas. De surpresas e de certezas. Melhor do que fazer novos amigos ou se rir com os velhos, é se abrir ao novo e ainda se surpreender fazendo novo cada encontro com os velhos. É preciso estar distraído e pronto pro imprevisível! Veja só, sempre falam de sorte, posso até dizer que tenho sorte, e acho mesmo que ela existe e sempre me encontra a sua espera. Eu conto com a sorte como conto a vida, acho intrigante pensar assim. Se desvencilhar dos mesmos caminhos, dos velhos moldes, das mesmas velhas formas prontas de sucesso, da velha opinião formada sobre tudo.

Um novo mundo se abre a cada dia, a cada manhã. E despertar embriagado em tempos de pessoas sedentas depende mais das respostas que me dou do que das perguntas que me fazem. Depende de mim. Eu tava com saudade de deixar essas pegadas com o rafadesapatonovo, tava mesmo. Não fossem os estímulos e os incentivos que recebo, até em forma de provocação, talvez eu pisasse até menos aqui. Esse blog conta os melhores anos da minha vida. Conta o dia em que conheci até o dia que eu perdi amigos. Conta como e quando começaram vidas e quando o silêncio foi maior do que elas. Me encontro refeito, em pé e incólume mais uma vez. Voltar aqui me faz bem, muito bem.

quarta-feira, 20 de março de 2013

O que vale é o sentimento, e o amor que a gente tem no coração...




Chovia um pouco e naquela fria tarde de sexta-feira, como em todas as outras, fui almoçar num restaurante perto de casa. Curitiba enfrentava um inverno forte em 2009 e poucas coisas na vida são mais solitárias do que frio e chuva simultâneos. Nesses dias, o Tropo Buono era o meu lugar favorito. Além da culinária caseira e acolhedora, Lala e Cris sempre me tratavam tão bem que, por vezes, cheguei a ir pra lá só pra conversar e tomar um café. É o único restaurante que eu conheço que tem biblioteca, gente inteligente e boa comida. Naquele dia fui tarde, eram umas duas e meia. Entrei com pressa e sentei de costas pra uma única mesa ocupada por três pessoas.

Lala era Laís Pires, conhecida produtora artística carioca que, assim como eu, foi parar no Paraná por essas coisas que quase nunca entendemos bem. Falávamos sempre de música, arte, cultura e da cena popular brasileira. Ela, mais do que eu, tinha muita história pra contar. Tinha sido responsável por levar vários artistas aos Estados Unidos, já havia excursionado e produzido Leny Andrade, Beth Carvalho e tantos outros nomes. Lala, ao saber que eu era pernambucano, sempre me falava do Romero Lubambo, violonista cuja família morava em Recife, quando engatamos a primeira conversa e nunca mais paramos. Falando dela me dá vontade de chorar, de tanto carinho e saudade.

“- Rafa, vem cá. Quero te apresentar um amigo meu”, veio ela até minha mesa e me puxou, ao ver que eu já tinha terminado o almoço. “Então, esse aqui é o Emílio... Rafa, Emílio. Emílio, Rafa”. Ah, por isso! Eu bem conhecia aquela voz que ria e falava na outra mesa, mas não seria indiscreto de olhar pra confirmar. Desde criança eu já era fã de Emílio Santiago desde que ouvi as famosas Aquarelas. Já tinha ido a um show dele no Teatro Castro Alves em Salvador e sabia um pouco da sua história também. Cumprimentei-o com uma boa tarde e saudei os demais que estavam na mesa.
“-Olá, Emílio. É um prazer, uma honra. A Lala já tinha me falado de você”.
“-Ah, é?! Mas com esse sotaque, você não é daqui, é?! Lala, pega um café pro Rafa!”, tratou logo de me deixar à vontade e pediu pro Soca, secretário dele, puxar uma cadeira. “Obrigado” – agradeci e sentei ali por umas duas horas.

Emílio tinha ido fazer um show com a Áurea Martins no Teatro da Caixa. Eram três dias de espetáculo, sexta, sábado e domingo. E o carinho que ele tinha por Lala era uma coisa linda de se ver. Ele tinha disso: se gostasse de alguém, elogiava em público até deixar com vergonha. Outro dia, em um show em Recife, me apresentou ao Lenine e foi rasgando elogios sobre a minha atuação profissional, de coisas que eu nem imaginava que sabia de mim. Acho que foi uma das vezes que fiquei mais vaidoso na vida. O normal seria o inverso! Mas era assim também que falava da Lala. Não era pra menos, ela o levou pela primeira vez à Nova York, lugar que, de tanto gostar, até apartamento acabou comprando por lá tempos depois. E era bonito de se ver como ele gostava dela. Não pude ir na sexta por compromissos acadêmicos, mas como ele me convidou para os outros dias, apareci no sábado e no domingo. Depois fomos todos a um bistrô e, quando voltei pra deixa-lo no hotel, recebi um DVD que já estava dedicado. Tenho guardado aquele momento tão vivo que parece que foi ontem.

De temperamento forte, mas capaz de uma generosidade rara, Emílio era capaz muitas vezes de adivinhar a melhor hora das coisas. Não nos falávamos há uns três meses quando, certa vez, me ligou umas 11 horas da noite: “-Pernambuquinho, como você tá? Como andam as coisas por aí? Vi que o tempo em Curitiba está frio, se cuida hein!”. E estava mesmo frio, uns 4 graus. E aquela lembrança dele, em breves dois minutos de conversa, foi certeira. Outra vez ele foi fazer um show em Porto Alegre e antes passou em Curitiba. Peguei-o no aeroporto e fomos almoçar em Santa Felicidade. Quando estacionei o carro, veio um garotinho pedir comida pra família e, depois de ajuda-lo, começou a me contar uma história. Disse que um dia foi fazer compras em um supermercado no Rio e na saída uma criança pediu algo pra comer. Aquilo mexeu com os brios dele de tal forma que retornou com o moleque ao supermercado, encheu um carrinho com caixas de leite e outras coisas e o colocou num táxi para levar até em casa, provando existir a sensibilidade no homem como existia no intérprete. Contando-me isso foi às lágrimas, e me levou junto também. Dentre tantas outras milhares histórias, que não caberiam em um livro.

Outra vez, depois de um show, a produção do evento fez uma passagem pra chegar até o carro que evitava o público. Ele soube e fez o inverso, procurou a saída que passava pelo público. Lembro-me de ter tirado pra lá de cem fotos. Tinha adolescente de 14 e idoso de 70 anos cantando e dizendo admira-lo. Quem não deve ter gostado foi o motorista, já que precisou enfrentar a multidão pra que entrássemos no carro...
Emilio tinha o jeito do Rio, o jeito da noite carioca, de Copacabana. Já me confessou que só moraria em outro lugar que não Botafogo, onde morava. E era Copacabana, mas tinha que ser na Atlântica. Senão nada feito. Pra mim, um dos shows mais clássicos e épicos da história da música brasileira é o dele no Copacabana Palace. Não tem nada mais carioca, nada mais brasileiro do que Emílio Santiago cantando em Copacabana! Lembro ainda que, por motivos profissionais, só pude chegar à São Paulo na tarde da gravação do último DVD dele, o “Só Danço Samba”. Fui direto pro Citibank Hall, mas nem me preocupei quanto a perder alguma coisa. Com ele era tudo ao vivo, na hora. Não tinha cerimônia de gravar e refazer não. Conversando com o Zé Milton (que dirigiu e produziu aquele show) já depois no camarim, perguntei se tudo tinha ido bem. Ele disse, sorrindo: “Com esse aí? Já tá pronto!”. Almoçamos na tarde seguinte no Copan e, brincando, disse que eu achava que precisaria refazer a faixa 5 (não sabia nem qual era a faixa 5!). E ele, de pronto, perguntou se a gravação do DVD que eu tinha ido tinha sido o dele! Tinha uma alma incomum, de artista. Os olhos dele brilhavam pelo palco, e ele sempre brilhava no palco. O The New York Times o elegeu como uma das maiores vozes de todos os tempos, ao ponto de dizer que a voz de Emílio era mais suave e profunda que a de Nat King Cole. Imagina! A coroação de uma carreira trilhada passo a passo, desde os festivais de música e do programa de Flávio Cavalcanti até os críticos norte-americanos e o Grammy Latino. Uma história maiúscula, do tamanho do seu talento!

Enfim, em outro patamar ele sempre esteve, aquela voz nunca podia ser desse mundo. Poucas coisas nessa vida inexplicável são suficientes pra mim e ter convivido e ser amigo do Emílio é uma delas. Guardo, como se gravado estivesse, sua voz há 19 dias atrás no telefone: "A vida é bela, Rafa. Só nos resta viver!". A sensação de perda é tão grande que não consigo expressar em palavras. Aliás, não conseguirei expressar em nada. Nem em tantas palavras, nem em meias palavras. Anoiteceu, Emílio. Sem você por aqui, agora olho pro céu e vejo como é bom ver você entre as estrelas na escuridão. Sua voz inconfundível agora é ouvida pelos anjos, que esperavam você voltar. Hoje o céu é Saigon.
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Emílio Vitalino Santiago, saudades eternas.
* 06/12/1946
† 20/03/2013

quarta-feira, 6 de março de 2013

Regra e exceção

Na exceção está a graça da vida. Escrevo pra todos e quero ser lido por muita gente, mesmo não sendo essa a minha maior intenção quando me ponho a discorrer sobre a vida. Confesso que alguns me leem como as multidões leem as estrelas, de modo astrológico, e não como alguns letrados que a veem de um modo astronômico.
 

Para não repetir os monossílabos de tantos livros expostos por aí – acho que por ter sido alfabetizado de maneira popular e muito pouco erudita – prefiro as exceções. Explico: acho que alunos que sentaram nas primeiras filas da sala de aula gostam menos de mim do que aqueles do fundo. Ali é que se vivia intensamente o dia a dia escolar, a malícia do mundo, a verdade das coisas. Líamos (e aqui me coloco entre eles) o bê-á-bá mais leve, éramos sempre mais sutis nas perguntas, íamos além do que se queria indagar. Nem sempre a pergunta era só relativa à matéria – o que chegava a deixar o professor sem resposta, já que este às vezes pouco sabia além daquela matéria que lecionava, ou do assunto que expunha. Coincidência, ou não, foram esses meus amigos que se tornaram grandes profissionais, pois em certo momento o mundo exigiu menos disciplina e mais experimento. Ah, mas todos – sem exceção – se deram bem na vida (mesmo sem saber ao certo o que é esse “bem”, repito o que os pais falam quando se referem a nós).


Gosto também das exceções no amor. Lembro bem de um exemplo que sempre me vem à mente quando falo disso. Lucila sempre esperou de maneira submissa a chegada do seu grande amor e tinha a convicção que ele chegaria de repente. Esse era o seu grande sonho: estar caminhando na praça, junto à sua amiga, e ser surpreendida com um cortejo do seu amado, que a colocaria em cima do seu cavalo e a levaria pra bem longe dali. Tomariam um café, ele a falaria coisas bonitas e a deixaria em casa, incólume, com encontro marcado para o outro dia e a promessa que seriam felizes para sempre. A mãe dela pensava diferente: queria que se casasse com o Quinzinho, filho do Joaquim da mercearia. Esse sim era um bom partido. Possuía estirpe, curso de datilografia, estava prestes a terminar o curso de Licenciatura em Geografia e era até, digamos, bonito (essa é a pior parte da descrição, com um teor extra de piedade, pra não dizer também que o rapaz era só esforçado). Lucila nunca se viu casada com ele, mas o tempo passava e nada do cavalo, da fuga, das promessas. Já prestes a largar o sonho pela realidade por conta da comodidade (como se fazem essas trocas por aí!), ela decidiu que não se curvaria ao sono do destino que insistia em esconder o seu amado e esperaria o tempo que fosse. Para ela, nada seria mais triste do que estar com o Quinzinho quando o grande amor da sua vida aparecesse e não a pudesse levar consigo. “-Deixa de bobagem, menina. Só você que não vê que a vida é aqui!” diziam alguns, em tom desanimador. “- Case-se com ele, serão felizes, ele a ama tanto que fará você sentir o mesmo por ele, questão de tempo...” reforçavam outros ainda mais conformados com a dinâmica da vida. Lucila bateu o pé. Como uma exceção (e eu gosto das exceções, repito), insistiu e viu o Quinzinho se formar, arranjar um emprego, se casar com uma amiga de infância e ter com ela três filhos em quatro anos. Dizem até que a garota casou grávida, de tanto que queria se casar com aquele partido. Lucila preferiu ficar só, a expectativa daquele amor distante e difícil era melhor do que a realidade morna que perdera. O tempo passou e a última notícia que tive foi que ela anda apaixonada. Reencontrou na última viagem de férias um amigo de uma prima que conhecera na adolescência e só fala no rapaz, desde então. Também não me pergunte se ele veio a cavalo ao encontro dela, mas acho que, se não, ela desistiu de parte de sonho. Não dá pra se querer tudo, também. Né?!

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Menos um apaixonado

Outro dia escrevi que o futebol estava sem graça. Vejo o esporte bretão como um quadro que outrora já fora uma obra de arte e hoje está feio, desafeiçoado, sem sentido. Falo de cátedra, como um apaixonado meio bobo que compra camisa, vai aos estádios, é sócio do time, acompanha, vibra, torce, apoia. Vou pro alambrado pra tentar ficar mais perto da bola. Compro jornais só pela página de esportes, e vou direto a ela para ver as notícias do meu time. Pela escassez de tempo, muitas vezes nem leio sobre política ou cultura. É assim desde 1988, quando fui pela primeira vez ao Eládio de Barros Carvalho levado pelo meu querido pai, alvirrubro fiel de quem herdei esse verdadeiro fetiche. Enfim, amo o vermelho e branco de uma forma incondicional e inexplicável. Já viajei pra ver o Timbu de Rosa e Silva ao Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio Grande do Norte, Santa Cruz do Capibaribe. Em alguns desses lugares mal andei nas cidades. Era aeroporto-hotel-estádio. É uma coisa que não tem medida, não tem explicação, nem nunca terá, não há justificativas pra isso.

Hoje foi um sábado, dia de jogo. Tinha tudo para ser um jogo como outro, como tantos outros Náutico x Central que já fui na vida. Por baixo, pelos meus cálculos, já fui a uns vinte. Marquei com os amigos, tirei a camisa da gaveta e saí de casa certo que iria descontrair, dar boas risadas, festejar. Sou de um tempo em que futebol era diversão, que estádio era local de fazer amigos, seja alvirrubro, seja rival. Mas rival de que, afinal?! Rivais porque tem que ter alguém do outro lado durante 90 minutos. Nesse tempo deixamos de ser amigos e passamos a ser colegas. E só. Depois voltamos a ser amigos.

Eram 18:40 e eu estava na padaria que fica em frente ao estádio, ponto de encontro onde sempre vou. De repente saltam de um ônibus, sem qualquer motivo aparente, homens vestidos de preto, armados com cacetetes e armas de fogo e uma batalha começa sem que eu entendesse nada daquilo. Talvez por trinta segundos (ou menos), não fui atingido. Por um momento fiquei atônito, sem saber o que estava acontecendo. Depois recebi a notícia que se tratava de um ônibus onde estavam integrantes de uma torcida organizada do Sport que passava em frente naquele instante. Gritos. Correria. Tiros. Um corpo estendido no chão. Sangue.

Começam a caça e as bruxas são sempre as mesmas.
A Polícia Militar tem culpa? O efetivo era suficiente para garantir a segurança dos 9.000 torcedores no jogo do Náutico?!
A Polícia Civil tem culpa? Homens armados fazendo a segurança particular, como as várias espécies de milícia (e, até onde eu sei, "constituir milícia particular com a finalidade de praticar crimes", é uma conduta tipificada no Código Penal, em seu art. 288-A, cuja pena é de reclusão de 4 a 8 anos) que hoje existe de maneira tolerada e comum em Recife. Verdadeiros esquadrões de organização paramilitar, que agem à revelia dessa autoridade.
A Federação Pernambucana tem culpa? Esse jogo seria amanhã, mas foi transferido pra hoje e ficou um vazio de uma hora entre o término do jogo na Ilha do Retiro e o início do jogo nos Aflitos, tempo suficiente para o encontro das duas gangues.

Torcida organizada tem que acabar. Não me venha com argumentos que fazem uma festa bonita, que animam, blá, blá, blá. Isso é uma ilação que satisfaz a poucos em detrimento da paz pública de todos, bem jurídico dos mais importantes. É muito problema pra apenas 90 minutos (e às vezes nem isso) de alegria. É como um aluno que sempre atrapalha, compromete toda a sala e só tira notas baixas, mas na hora do recreio diverte a todos. Isso é incoerente e a permanência desses vândalos é insustentável e inconsequente.

O Sport empatou e foi eliminado da Copa do Nordeste. O Náutico perdeu o jogo. Lucas teve perto de perder a vida aos 19 anos. Eu perdi o gosto de ir a campo e vou rever seriamente se continuarei a me arriscar em levar um tiro na entrada - ou, como já aconteceu, cair um refletor na minha cabeça, ou cair no fosso - e também morrer. Isso tudo se passou aqui em Pernambuco, nos três maiores estádios. Poderia ser eu e esse texto sequer estaria aqui agora. Poderia ser você que, mesmo sem ir à estádios, passava na Av. Rosa e Silva naquele fatídico instante. Mas, quando uma vida é ameaçada assim, o tempo passa e em poucos dias o sofrimento da família é o único herdeiro desse espólio chamado "Tragédias do Futebol". Mais uma triste página desse livro difícil de ler e, por muito pouco, seria menos uma vida. Mais um inconformado. Menos um apaixonado.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Pai e filho

Começou com 5 visitas diárias, acho que dos amigos que estavam na mesa quando eu falei despretensiosamente. Depois 15, 50, 150. Chegou um dia que o servidor acusou mais de 2.000, do mundo quase todo. Não imagino um chinês lendo essas palavras! Caramba! Mas ele há de entender, como diz o Arthur da Távola, "quem pode afirmar que, durante o sono, fluidos nossos não saem para buscar sintomas com pessoas distantes, com amigos a quem não vemos, com amores latentes?". É, poesia é um dialeto, de uma comunidade de loucos. Os poetas são todos loucos. Poesia é uma forma de loucura. Veja só: o Fernando Pessoa diz "-Tudo, menos ter razão". Se ele fosse normal diria o contrário, "Tudo, menos não ter razão!". Li isso no Rubem Alves. Isso que normalmente damos o nome de razão são máscaras, mentiras, equívocos, farsas. A nossa verdade anda sempre enterrada. E é.

Nesse espaço, que é a janela lateral do meu quarto de dormir, de onde vejo o mundo lá fora e tento traduzir em palavras, eu me mostro por completo. Lendo isso aqui dá pra conhecer, talvez, quem eu sou. Ou, ao menos, quem eu queria ser! O rafadesapatonovo tem esse nome não por acaso, de sapato novo porque assim passei a caminhar de uns tempos pra sempre. Já até escrevi explicando esse tema.

Hoje recebi a ligação da Editora, avisando que a burocracia do meu livro estava resolvida. Pronto, nasci como escritor. Foi como receber a notícia da minha mulher (que nem tenho ainda!), de que estava grávida do meu primeiro filho (que tanto quero ter!). Livros são filhos que educamos antes de nascer. Ensinamos o que queríamos que as coisas fossem. Como eu queria que o mundo fosse mais compassivo, com menos valores materiais, mais humano. Em tempo: somos seres humanos e quase nunca humanos! Ainda há tanta gente na rua, tanta fome, tanta dor, ódio, solidão, mentira, ambição. Não existe mais contemplação, o sol vem e se põe e poucos o veem. Não existe mais afeto, palavras doces, elogios. Ligações pra dizer nada. Sinceridade e honestidade pra dizer tudo. Respeito no começo, e no meio, e no fim. Não existe.

Quero um filho assim, humano, mesmo sem ser humano. Que respeite as filhas dos outros, a família dos outros. Que adentre as casas pela porta da frente, que reconheça a história das pessoas, com seus medos, sentimentos, e respeite os sonhos delas. Nunca escreverei pra dizer que algo não vale a pena. Tem coisa mais deselegante que um filho desbocado e mal educado em um jantar de família?! Depois de crescido dificilmente se educa alguém e, nesse sentido, os livros já nascem grandes.

De gestos pequenos é feita a vida. Um abraço forte, uma lembrança boa, um sorriso à toa. Tenho tudo isso registrado em lugar especial, que se tornará papel, útil para eterniza-lo, em breve. Muito em breve.

sábado, 19 de janeiro de 2013

O velho (e bom) continente!

Milhões de anos luz serão incapazes de curar o que alguns primeiros segundos desse ano me representaram. Volto da Europa e, como se tivesse acordado pra 2013 só hoje, desperto de um sonho que começou ainda no ano passado. Começou comigo ainda acordado e irá perdurar por muito tempo, tenho certeza, mesmo até depois de já ter levantando.

Madrid é uma cidade como nenhuma outra. Elegante e viva, urbana e pulsante. Foi o reveillon mais divertido da minha vida! O Porto é charmoso, tem o céu lindo, talvez o mais bonito que já vi. Portugal e Espanha são dois paísinhos danados! É uma pena não mostrar aqui tudo que os meus olhos viram, guardo mais imagens na memória do que nos registros da máquina. Acho até melhor assim, pois não corro o risco de perde-las. A Espanha tava linda, soberba campeã mundial, emanando bons ares. Portugal é um charme, um segredo guardado a sete chaves, um bom vinho a ser tomado quase que a doses homeopáticas. Andar por lá fez bem à minha alma.

No entanto, o melhor da viagem foram os amigos que fiz. Alguns talvez nem os veja mais nessa vida (há coisa mais incerta do que essa vida?!), mas que me ensinaram muita coisa e adoro quem me ensina alguma coisa. Aprendi demais nesses dias e isso me fez mais humano. Fui recebido e tratado como poucas vezes! Tive uma recepção e uma despedida de quem merece alguma coisa, sem ter feito nada! Descobri que respeito e caráter são fermento e que a paixão é um bolo que precisa deles pra crescer, outro jeito não há. Como já é grande a minha admiração! É, "eu tive que ir embora, mesmo querendo ficar..."

Luísa Silva, cruzo esse oceano atlântico quantas vezes for possível só pra ver você sorrindo ao vivo. Marta Alves, Bia Alves e Ana Rita Costa, com vocês não tem explicação, obrigado por tudo! Amo vocês!

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Um caminho de herança

2012 é daqueles anos que poderia não ter fim. Motivos me sobram pra querer eterniza-lo, e são os mesmos que aumentam a responsabilidade de 2013. Há tanta coisa boa pra celebrar!

Passei no Mestrado da UFPE (academia cuja linha no currículo eu sempre quis ter!). Foram muitos shows e, o que é melhor, muitos bons shows. Multipliquei meus amigos, conheci tanta gente especial, do bem! Atuei em alguns Júris e confirmei ser aquela uma das minhas maiores paixões. Revi lugares importantes pra mim, visitei pessoas importantes pra mim. Procurei ser mais importante para os outros, tentei ser o melhor que eu podia ser para os outros. Comemorei muitas aprovações e nomeações dos alunos em concursos, eu sei que essa é uma luta que se vence por pontos, raramente por nocaute, e isso me fez mais forte. Tomei decisões importantes, algumas definitivas. Sorri um sorriso de esperança ao ver a corrupção receber uma inédita resposta. Vi amigos partirem, mas também vi a vida começar. Que coisa é a vida! Senti que estava vivo a cada momento que chorei ou sorri olhando as coisas lá de fora, daqui de dentro. É bom ter o Senhor do tempo à frente, acalma demais, é a paz que não está à venda, como quase tudo hoje em dia.

Acho que houve mais acerto do que erro. Acho que tô melhor, maior. Mais atento, crescido. Tô meio pronto e meio em preparação. Quero que "a minha esperança seja sempre um caminho que se deixa de herança", como já disse Ivan Lins. 2013 será de um novo tempo.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Sem graça

Futebol tá sem graça. Explico: mesmo com a última e decisiva rodada do Brasileiro pegando fogo por aqui, o futebol tem andado sem graça. O mercantilismo inflacionou salários desde o Palmeiras da Parmalat, tomou conta de cotas de televisão desiguais, desvirtua a paixão honesta e tirou um pouco (um pouco) da magia do esporte bretão.

Entendam.
O Sport, se for rebaixado, não foi pelo último jogo, mas pelas 16 derrotas e 55 gols sofridos desde maio. Isso sem falar nos 3 treinadores, no saldo negativo de -16 gols e nas 33 contratações (dentre elas Lenon, Magno Alves e Silézio. Isso mesmo, Silézio).
O Náutico, se for à Sulamericana, não foi pelo último jogo, mas pelas 13 vitórias e 43 gols feitos em 37 jogos. Registre-se também o aproveitamento de 72,2% dos pontos como mandante e o bom critério nas contratações de jogadores como Martinez, Rhayner e Alemão, por exemplo.

Mas eu tava falando da graça, ou da sem graça. Sinto falta da boa polêmica, saudável, divertida. Antigamente se sabia perder. E perdia-se com classe, indo ao churrasco na casa do adversário da noite anterior, sorrindo, como devia ser. Dá saudade das frases de Dadá Maravilha, das fantasias do Renato Gaúcho, das máscaras do Paulo Nunes, das declarações do Romário, dos dribles e dancinhas do Edmundo, dos gols fantasmas do Túlio. Guardadas as proporções, até das profecias do Carlinhos Bala eu sinto falta. Sou de um tempo em que futebol era arte, e arte em todos os sentidos. Da plasticidade do drible às apostas que se convertiam em cestas básicas.

Hoje o que se vê é tudo, menos arte. Uma declaração feita através de uma rede social se torna uma coisa enorme, maior que uma convocação pra Seleção Brasileira! Vejam, Douglas Santos foi convocado (pela 3ª vez!) e isso fica diminuto nos meios de comunicação diante de 140 caracteres ingênuos. Sim, ingênuos. Não há menosprezo em ser chamado de 'coisa', ou de 'barbie', ou do que quer que seja. No Brasil, é mais grave ser chamado dessas coisas do que de corrupto. Será que é mais interessante polemizar sobre isso ou apontar os (i)responsáveis por essa campanha? Repito, se o Sport cair, a culpa não será do Náutico (não obstante jogar a última pá de terra).

Sou sócio, vou a campo, compro camisa, viajo pra ver o meu time, sou um apaixonado meio bobo. Mas que aos poucos o futebol vai perdendo a (pouca) graça que ainda tem, isso vai.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Vitória do caráter

Eu sei que você já leu algumas histórias surpreendentes ao longo da sua vida, independente de quantos anos ela tenha. Sei também que, para cada referencial, existem importâncias diferentes. Um testemunho que pode parecer comum para mim, soa surreal pra você, ou vice-versa. A verdade é que "perder o idealismo com a idade é falta de caráter"*. E ser um idealista tem um preço que, no meu caso, muitas vezes acaba sendo muito alto.

Digo isso porque o Direito Criminal começou a gostar de mim e, apenas um tempo depois, passou a ser correspondido. Na verdade, comecei a perceber que isso faria (e espero que faça) parte da minha vida pelo tempo que ela perdurar, quando me vi diante de uma realidade latente, como uma panela que ferve a 150°C e é tocada sem a expectativa que pode queimar. Ser defensor público me deu indignação suficiente para saber que sensibilidade e razão devem sempre caminhar como par perfeito. Eu sei o que acontece nos calabouços dos distritos policiais pelo Brasil afora. É um ledo engano achar que 1º de abril de 1964 é uma data há 48 anos atrás. Os Atos Institucionais que a ditadura pôs em prática, suprimindo as liberdades individuais e criando um código de processo militar que prendia e encarcerava (quando não fazia desaparecer) pessoas suspeitas é reproduzido de maneira cruel nos nossos dias e, pior, de maneira atroz, bárbara, maligna e perversa. A covardia de policiais e agentes é inversamente prorcional ao meu receio de escrever palavras como essas, e diretamente proporcional ao medo que eles tem de me enfrentar em um tribunal. De igual pra igual esses covardes não tem coragem de olhar no meu olho, como dizem ter quando levam inocentes às salas de investigação ou de reconhecimento e deles arrancam confissões ao preço de não deixarem impunes infrações que não tiveram a capacidade de previnir ou resolver.

Ao enxergar realidades como essa, não se pode subsistir a pudícia. Falo essas coisas sem medo de deixar de ser leve. Não tenho medo. Disse e repito a quem tiver ouvidos para ouvir e olhos para ler, que meu receio em enfrentar esse sistema corrupto e sanguinolento é diretamente proporcional à covardia dele. E melhor: não estou sozinho.

Acabo de ler uma história surpreendente. Aliás, algumas histórias, no plural, todas surpreendentes. Chegou até a minha pessoa, como um sopro qual um canto de um pássaro solto e livre, esse livro que me fez escrever esse post. "desCasos - uma advogada às voltas com o direito dos excluídos"** é um daqueles livros que devem ser lidos agora, sem deixar pra amanhã. Devorei-o em exatos 32 minutos, não por ser pequeno (o que de fato é, poderia e deveria ser maior!), mas por ser delicioso. A sua escritora, a Alexandra Lebelson Szafir, é defensora pública e igualmente irriquieta com as incoerências do sistema brasileiro. O que a torna ainda mais precisa (em ambos os sentidos que precisa possa receber) é que por motivos de uma ELA (esclerose lateral amiotrófica) ela teve afetados os movimentos das pernas, depois das mãos, braços, costas e, finalmente, deglutição e fala - o que a impossibilitou de escrever e até ditar para que alguém o fizesse. Suas ideias e pensamentos brilhantes presos à sua mente puderam ser lidos por mim (e espero, do fundo da minha alma, que por você também) por um programa de computador criado por uma fonoaudióloga que funciona como uma webcam que focaliza o seu rosto e se fixa no ponto central dele, que passa a comandar o mouse, movendo-se na tela de acordo com os movimentos do nariz - o que a levou a dizer que "começou a meter o nariz onde não foi chamada", em tom leve e brilhante. Fantástico né?! Perfeita.

Que bom que existem pessoas como Alexandra no mundo. Citando Edmund Burke - o que ela também faz - "ninguém comete erro maior do que não fazer nada porque só pode fazer um pouco". Muito ou pouco espero jamais deixar de fazer a minha parte. Idealizo coisas grandiosas. No amor, na profissão, na vida. E perder esse idealismo me faria um derrotado de alma. Um perdedor de caráter.

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*Frase do Dr. Ranulfo de Melo Freire, citada no livro "desCasos - uma advogada às voltas com o direito do excluídos", livro esse de leitura OBRIGATÓRIA para qualquer ser humano - seja indiferente ou preocupado com a humanidade, presente e futura.

** SZAFIR, Alexandra Lebelson. Descasos: uma advogada às voltas com o direito dos excluídos. São Paulo: Saraiva, 2010.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Quando não houve bucha de canhão

Hoje me peguei completando um desses cadastros que estamos a preencher em cada lugar ou site por onde passamos. Na profissão fiquei em dúvida. Melhor, tive duas certezas - o que também não deixa de ser uma dúvida. Lembrei-me na hora de um amigo que me achava um professor que advogava, e não um advogado que ensinava. Concordei. Gostamos de ser chamado por aquilo que mais gostamos de fazer. Damas que passam uma, duas ou às vezes até mais horas a se arrumar merecem ser elogiadas. Um jardineiro que dedica dias da sua vida a um jardim merece ser elogiado e, nesse caso, em dobro. Pessoas que nos fazem bem pelo simples fato de ocuparem nosso pensamento merecem elogios.

Sim, mas o que gosto mesmo é de ensinar. Gosto de receber e-mails de alunos gratos por terem conseguido 'fechar' uma prova que passaram tempos a se preparar e que lograram êxito. Fico feliz da vida por ter-lhes entregue algumas horas e dias da minha companhia! Quando dividem isso comigo me sinto tão vitorioso quanto eles, acho que cumpri meu papel aqui na Terra. Me apetece ver alunos ocupando funções públicas e as fazendo dando o melhor de si, alimentando suas famílias, sustentando seus lares, educando seus filhos. É um trófeu que meu sorriso ergue, uma recompensa que não é pecuniária e nem tampouco faz cessar as minhas necessidades vitais que meu corpo fadado aos prazeres clama. Mas me faz feliz por completo! Você não imagina o carnaval que fica dentro de mim ao caminhar no Fórum, ou dirigir meu carro no trânsito, ou ir às repartições e ouvir um "Professor, tudo bom?! Olha, nunca me esquecerei daquelas aulas de direito penal! Legítima defesa, homicídio, lesões corporais, pena privativa de liberdade, progressão de regime! Dos seus exemplos, suas histórias... me ajudaram demais, foi útil à minha realização, minha aprovação no concurso!". Me sinto um pai após um dia de trabalho a ninar seu filho que foi à escola e dorme se preparando para um outro dia. Isso me instiga, tira meu ar, faz meu pulso bater. Acredito mesmo que nasci pra isso.

Já advogar me faz bem na alma. Mexe com muita coisa que eu tenho contido. Aliás, não só eu mas todos que se indignam diante de uma injustiça. Quer maior sacanagem do que aquela que a China fez com o Tibet?! Quer maior injustiça do que a que fazem com os brasileiros que se levantam diuturnamente em relação ao peso tributário que são obrigados a suportar, quando na verdade poderiam usar esse dinheiro para o seu prazer?! Não falo nem da corrupção de parlamentares, de desvios de verbas públicas, de políticos que se apropriam de dinheiro que não lhes pertencem. O Brasil tem mudado e creio que bons ventos hão de soprar por aqui. Mas já perdi o sono por não suportar injustiças. Já passei noites em claro por ter de encontrar razoabilidade em defesas de acusados confessos. Sei o que se passa, ainda hoje, nos calabouços das delegacias de polícia. Já precisei resolver em um dia de plenário no Tribunal do Júri uma injustiça que se arrastou por mais de quatro anos entre oitivas e audiências onde não se achava o acusado mas que, pela necessidade de dar uma resposta tão irresponsável quanto inconsequente, o crime precisava de um culpado. A expressão "bucha de canhão" tem origem na humilhante identificação para aqueles que, defendendo a pátria (que os oprimia!), morriam aos milhares no campo de batalha. Aquele processo precisava de uma bucha de canhão, mas não teve. E nem terá, pelo menos enquanto eu puder com as minhas tão frágeis forças equilibrar essa balança, e tiver vez e voz. Só de escrever isso já começo a sentir o sangue ferver. Isso muitos dias foi e ainda há de ser meu alimento. Chego a perder o apetite, mas ganho em sonhos. E, melhor, em sonhos realizados.

Ou seja, escrevo por prazer de escrever e me derramar nesse espaço. Como falei no início, todos que dedicam parte do seu tempo a algum fim, se há nobreza nele, merecem os aplausos. A moça que se embeleza, o jardineiro, gente empenhada em fazer o bem. Fico feliz porque existem pessoas que me provocam a escrever e elas são tão importantes! Tão importantes que merecem ser lembradas. Obrigado por cobrarem, quase que em tom de exigência. Somos bons quando somos provocados. E melhores ainda quando deixamos uma parte de nós por onde andamos, e do meu corpo já tem boa parte por aqui.